Ordem dos Livros

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Jó nada mais espera desta vida
1.O meu espírito se vai consumindo, os meus dias se vão apagando, e só tenho perante mim a sepultura.
2.Estou, de fato, cercado de zombadores, e os meus olhos são obrigados a lhes contemplar a provocação.
3.Dá-me, pois, um penhor; sê o meu fiador para contigo mesmo; quem mais haverá que se possa comprometer comigo?
4.Porque ao seu coração encobriste o entendimento, pelo que não os exaltarás.
5.Se alguém oferece os seus amigos como presa, os olhos de seus filhos desfalecerão.
6.Mas a mim me pôs por provérbio dos povos; tornei-me como aquele em cujo rosto se cospe.
7.Pelo que já se escureceram de mágoa os meus olhos, e já todos os meus membros são como a sombra;
8.os retos pasmam disto, e o inocente se levanta contra o ímpio.
9.Contudo, o justo segue o seu caminho, e o puro de mãos cresce mais e mais em força.
10.Mas tornai-vos, todos vós, e vinde cá; porque sábio nenhum acharei entre vós.
11.Os meus dias passaram, e se malograram os meus propósitos, as aspirações do meu coração.
12.Convertem-me a noite em dia, e a luz, dizem, está perto das trevas.
13.Mas, se eu aguardo já a sepultura por minha casa; se nas trevas estendo a minha cama;
14.se ao sepulcro eu clamo: tu és meu pai; e aos vermes: vós sois minha mãe e minha irmã,
15.onde está, pois, a minha esperança? Sim, a minha esperança, quem a poderá ver?
16.Ela descerá até às portas da morte, quando juntamente no pó teremos descanso.
Bildade descreve a sorte do perverso
1.Então, respondeu Bildade, o suíta:
2.Até quando andarás à caça de palavras? Considera bem, e, então, falaremos.
3.Por que somos reputados por animais, e aos teus olhos passamos por curtos de inteligência?
4.Oh! Tu, que te despedaças na tua ira, será a terra abandonada por tua causa? Remover-se-ão as rochas do seu lugar?
5.Na verdade, a luz do perverso se apagará, e para seu fogo não resplandecerá a faísca;
6.a luz se escurecerá nas suas tendas, e a sua lâmpada sobre ele se apagará;
7.os seus passos fortes se estreitarão, e a sua própria trama o derribará.
8.Porque por seus próprios pés é lançado na rede e andará na boca de forje.
9.A armadilha o apanhará pelo calcanhar, e o laço o prenderá.
10.A corda está-lhe escondida na terra, e a armadilha, na vereda.
11.Os assombros o espantarão de todos os lados e o perseguirão a cada passo.
12.A calamidade virá faminta sobre ele, e a miséria estará alerta ao seu lado,
13.a qual lhe devorará os membros do corpo; serão devorados pelo primogênito da morte.
14.O perverso será arrancado da sua tenda, onde está confiado, e será levado ao rei dos terrores.
15.Nenhum dos seus morará na sua tenda, espalhar-se-á enxofre sobre a sua habitação.
16.Por baixo secarão as suas raízes, e murcharão por cima os seus ramos.
17.A sua memória desaparecerá da terra, e pelas praças não terá nome.
18.Da luz o lançarão nas trevas e o afugentarão do mundo.
19.Não terá filho nem posteridade entre o seu povo, nem sobrevivente algum ficará nas suas moradas.
20.Do seu dia se espantarão os do Ocidente, e os do Oriente serão tomados de horror.
21.Tais são, na verdade, as moradas do perverso, e este é o paradeiro do que não conhece a Deus.
Jó, embora sofrendo, sabe que seu Redentor vive
1.Então, respondeu Jó:
2.Até quando afligireis a minha alma e me quebrantareis com palavras?
3.Já dez vezes me vituperastes e não vos envergonhais de injuriar-me.
4.Embora haja eu, na verdade, errado, comigo ficará o meu erro.
5.Se quereis engrandecer-vos contra mim e me argüis pelo meu opróbrio,
6.sabei agora que Deus é que me oprimiu e com a sua rede me cercou.
7.Eis que clamo: violência! Mas não sou ouvido; grito: socorro! Porém não há justiça.
8.O meu caminho ele fechou, e não posso passar; e nas minhas veredas pôs trevas.
9.Da minha honra me despojou e tirou-me da cabeça a coroa.
10.Arruinou-me de todos os lados, e eu me vou; e arrancou-me a esperança, como a uma árvore.
11.Inflamou contra mim a sua ira e me tem na conta de seu adversário.
12.Juntas vieram as suas tropas, prepararam contra mim o seu caminho e se acamparam ao redor da minha tenda.
13.Pôs longe de mim a meus irmãos, e os que me conhecem, como estranhos, se apartaram de mim.
14.Os meus parentes me desampararam, e os meus conhecidos se esqueceram de mim.
15.Os que se abrigam na minha casa e as minhas servas me têm por estranho, e vim a ser estrangeiro aos seus olhos.
16.Chamo o meu criado, e ele não me responde; tenho de suplicar-lhe, eu mesmo.
17.O meu hálito é intolerável à minha mulher, e pelo mau cheiro sou repugnante aos filhos de minha mãe.
18.Até as crianças me desprezam, e, querendo eu levantar-me, zombam de mim.
19.Todos os meus amigos íntimos me abominam, e até os que eu amava se tornaram contra mim.
20.Os meus ossos se apegam à minha pele e à minha carne, e salvei-me só com a pele dos meus dentes.
21.Compadecei-vos de mim, amigos meus, compadecei-vos de mim, porque a mão de Deus me atingiu.
22.Por que me perseguis como Deus me persegue e não cessais de devorar a minha carne?
23.Quem me dera fossem agora escritas as minhas palavras! Quem me dera fossem gravadas em livro!
24.Que, com pena de ferro e com chumbo, para sempre fossem esculpidas na rocha!
25.Porque eu sei que o meu Redentor vive e por fim se levantará sobre a terra.
26.Depois, revestido este meu corpo da minha pele, em minha carne verei a Deus.
27.Vê-lo-ei por mim mesmo, os meus olhos o verão, e não outros; de saudade me desfalece o coração dentro de mim.
28.Se disserdes: Como o perseguiremos? E: A causa deste mal se acha nele,
29.temei, pois, a espada, porque tais acusações merecem o seu furor, para saberdes que há um juízo.
Zofar descreve as calamidades dos perversos
1.Então, respondeu Zofar, o naamatita:
2.Visto que os meus pensamentos me impõem resposta, eu me apresso.
3.Eu ouvi a repreensão, que me envergonha, mas o meu espírito me obriga a responder segundo o meu entendimento.
4.Porventura, não sabes tu que desde todos os tempos, desde que o homem foi posto sobre a terra,
5.o júbilo dos perversos é breve, e a alegria dos ímpios, momentânea?
6.Ainda que a sua presunção remonte aos céus, e a sua cabeça atinja as nuvens,
7.como o seu próprio esterco, apodrecerá para sempre; e os que o conheceram dirão: Onde está?
8.Voará como um sonho e não será achado, será afugentado como uma visão da noite.
9.Os olhos que o viram jamais o verão, e o seu lugar não o verá outra vez.
10.Os seus filhos procurarão aplacar aos pobres, e as suas mãos lhes restaurarão os seus bens.
11.Ainda que os seus ossos estejam cheios do vigor da sua juventude, esse vigor se deitará com ele no pó.
12.Ainda que o mal lhe seja doce na boca, e ele o esconda debaixo da língua,
13.e o saboreie, e o não deixe; antes, o retenha no seu paladar,
14.contudo, a sua comida se transformará nas suas entranhas; fel de áspides será no seu interior.
15.Engoliu riquezas, mas vomitá-las-á; do seu ventre Deus as lançará.
16.Veneno de áspides sorveu; língua de víbora o matará.
17.Não se deliciará com a vista dos ribeiros e dos rios transbordantes de mel e de leite.
18.Devolverá o fruto do seu trabalho e não o engolirá; do lucro de sua barganha não tirará prazer nenhum.
19.Oprimiu e desamparou os pobres, roubou casas que não edificou.
20.Por não haver limites à sua cobiça, não chegará a salvar as coisas por ele desejadas.
21.Nada escapou à sua cobiça insaciável, pelo que a sua prosperidade não durará.
22.Na plenitude da sua abastança, ver-se-á angustiado; toda a força da miséria virá sobre ele.
23.Para encher a sua barriga, Deus mandará sobre ele o furor da sua ira, que, por alimento, mandará chover sobre ele.
24.Se fugir das armas de ferro, o arco de bronze o traspassará.
25.Ele arranca das suas costas a flecha, e esta vem resplandecente do seu fel; e haverá assombro sobre ele.
26.Todas as calamidades serão reservadas contra os seus tesouros; fogo não assoprado o consumirá, fogo que se apascentará do que ficar na sua tenda.
27.Os céus lhe manifestarão a sua iniqüidade; e a terra se levantará contra ele.
28.As riquezas de sua casa serão transportadas; como água serão derramadas no dia da ira de Deus.
29.Tal é, da parte de Deus, a sorte do homem perverso, tal a herança decretada por Deus.
Almeida Revista e Atualizada, ARA © Copyright 1993
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