Desafio dos 90 dias

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Jó afirma a soberania de Deus
1.Jó, porém, respondeu:
2.Como sabes ajudar ao que não tem força e prestar socorro ao braço que não tem vigor!
3.Como sabes aconselhar ao que não tem sabedoria e revelar plenitude de verdadeiro conhecimento!
4.Com a ajuda de quem proferes tais palavras? E de quem é o espírito que fala em ti?
5.A alma dos mortos tremem debaixo das águas com seus habitantes.
6.O além está desnudo perante ele, e não há coberta para o abismo.
7.Ele estende o norte sobre o vazio e faz pairar a terra sobre o nada.
8.Prende as águas em densas nuvens, e as nuvens não se rasgam debaixo delas.
9.Encobre a face do seu trono e sobre ele estende a sua nuvem.
10.Traçou um círculo à superfície das águas, até aos confins da luz e das trevas.
11.As colunas do céu tremem e se espantam da sua ameaça.
12.Com a sua força fende o mar e com o seu entendimento abate o adversário.
13.Pelo seu sopro aclara os céus, a sua mão fere o dragão veloz.
14.Eis que isto são apenas as orlas dos seus caminhos! Que leve sussurro temos ouvido dele! Mas o trovão do seu poder, quem o entenderá?
Jó descreve a sorte dos perversos
1.Prosseguindo Jó em seu discurso, disse:
2.Tão certo como vive Deus, que me tirou o direito, e o Todo-Poderoso, que amargurou a minha alma,
3.enquanto em mim estiver a minha vida, e o sopro de Deus nos meus narizes,
4.nunca os meus lábios falarão injustiça, nem a minha língua pronunciará engano.
5.Longe de mim que eu vos dê razão! Até que eu expire, nunca afastarei de mim a minha integridade.
6.À minha justiça me apegarei e não a largarei; não me reprova a minha consciência por qualquer dia da minha vida.
7.Seja como o perverso o meu inimigo, e o que se levantar contra mim, como o injusto.
8.Porque qual será a esperança do ímpio, quando lhe for cortada a vida, quando Deus lhe arrancar a alma?
9.Acaso, ouvirá Deus o seu clamor, em lhe sobrevindo a tribulação?
10.Deleitar-se-á o perverso no Todo-Poderoso e invocará a Deus em todo o tempo?
11.Ensinar-vos-ei o que encerra a mão de Deus e não vos ocultarei o que está com o Todo-Poderoso.
12.Eis que todos vós já vistes isso; por que, pois, alimentais vãs noções?
13.Eis qual será da parte de Deus a porção do perverso e a herança que os opressores receberão do Todo-Poderoso:
14.Se os seus filhos se multiplicarem, será para a espada, e a sua prole não se fartará de pão.
15.Os que ficarem dela, a peste os enterrará, e as suas viúvas não chorarão.
16.Se o perverso amontoar prata como pó e acumular vestes como barro,
17.ele os acumulará, mas o justo é que os vestirá, e o inocente repartirá a prata.
18.Ele edifica a sua casa como a da traça e como a choça que o vigia constrói.
19.Rico se deita com a sua riqueza, abre os seus olhos e já não a vê.
20.Pavores se apoderam dele como inundação, de noite a tempestade o arrebata.
21.O vento oriental o leva, e ele se vai; varre-o com ímpeto do seu lugar.
22.Deus lança isto sobre ele e não o poupa, a ele que procura fugir precipitadamente da sua mão;
23.à sua queda lhe batem palmas, à saída o apupam com assobios.
O homem apropria-se das riquezas da terra
1.Na verdade, a prata tem suas minas, e o ouro, que se refina, o seu lugar.
2.O ferro tira-se da terra, e da pedra se funde o cobre.
3.Os homens põem termo à escuridão e até aos últimos confins procuram as pedras ocultas nas trevas e na densa escuridade.
4.Abrem entrada para minas longe da habitação dos homens, esquecidos dos transeuntes; e, assim, longe deles, dependurados, oscilam de um lado para outro.
5.Da terra procede o pão, mas embaixo é revolvida como por fogo.
6.Nas suas pedras se encontra safira, e há pó que contém ouro.
7.Essa vereda, a ave de rapina a ignora, e jamais a viram os olhos do falcão.
8.Nunca a pisaram feras majestosas, nem o leãozinho passou por ela.
9.Estende o homem a mão contra o rochedo e revolve os montes desde as suas raízes.
10.Abre canais nas pedras, e os seus olhos vêem tudo o que há de mais precioso.
11.Tapa os veios de água, e nem uma gota sai deles, e traz à luz o que estava escondido.
A verdadeira sabedoria é dom de Deus
12.Mas onde se achará a sabedoria? E onde está o lugar do entendimento?
13.O homem não conhece o valor dela, nem se acha ela na terra dos viventes.
14.O abismo diz: Ela não está em mim; e o mar diz: Não está comigo.
15.Não se dá por ela ouro fino, nem se pesa prata em câmbio dela.
16.O seu valor não se pode avaliar pelo ouro de Ofir, nem pelo precioso ônix, nem pela safira.
17.O ouro não se iguala a ela, nem o cristal; ela não se trocará por jóia de ouro fino;
18.ela faz esquecer o coral e o cristal; a aquisição da sabedoria é melhor que a das pérolas.
19.Não se lhe igualará o topázio da Etiópia, nem se pode avaliar por ouro puro.
20.Donde, pois, vem a sabedoria, e onde está o lugar do entendimento?
21.Está encoberta aos olhos de todo vivente e oculta às aves do céu.
22.O abismo e a morte dizem: Ouvimos com os nossos ouvidos a sua fama.
23.Deus lhe entende o caminho, e ele é quem sabe o seu lugar.
24.Porque ele perscruta até as extremidades da terra, vê tudo o que há debaixo dos céus.
25.Quando regulou o peso do vento e fixou a medida das águas;
26.quando determinou leis para a chuva e caminho para o relâmpago dos trovões,
27.então, viu ele a sabedoria e a manifestou; estabeleceu-a e também a esquadrinhou.
28.E disse ao homem: Eis que o temor do Senhor é a sabedoria, e o apartar-se do mal é o entendimento.
Jó lembra-se do seu primeiro estado feliz
1.Prosseguiu Jó no seu discurso e disse:
2.Ah! Quem me dera ser como fui nos meses passados, como nos dias em que Deus me guardava!
3.Quando fazia resplandecer a sua lâmpada sobre a minha cabeça, quando eu, guiado por sua luz, caminhava pelas trevas;
4.como fui nos dias do meu vigor, quando a amizade de Deus estava sobre a minha tenda;
5.quando o Todo-Poderoso ainda estava comigo, e os meus filhos, em redor de mim;
6.quando eu lavava os pés em leite, e da rocha me corriam ribeiros de azeite.
7.Quando eu saía para a porta da cidade, e na praça me era dado sentar-me,
8.os moços me viam e se retiravam; os idosos se levantavam e se punham em pé;
9.os príncipes reprimiam as suas palavras e punham a mão sobre a boca;
10.a voz dos nobres emudecia, e a sua língua se apegava ao paladar.
11.Ouvindo-me algum ouvido, esse me chamava feliz; vendo-me algum olho, dava testemunho de mim;
12.porque eu livrava os pobres que clamavam e também o órfão que não tinha quem o socorresse.
13.A bênção do que estava a perecer vinha sobre mim, e eu fazia rejubilar-se o coração da viúva.
14.Eu me cobria de justiça, e esta me servia de veste; como manto e turbante era a minha eqüidade.
15.Eu me fazia de olhos para o cego e de pés para o coxo.
16.Dos necessitados era pai e até as causas dos desconhecidos eu examinava.
17.Eu quebrava os queixos do iníquo e dos seus dentes lhe fazia eu cair a vítima.
18.Eu dizia: no meu ninho expirarei, multiplicarei os meus dias como a areia.
19.A minha raiz se estenderá até às águas, e o orvalho ficará durante a noite sobre os meus ramos;
20.a minha honra se renovará em mim, e o meu arco se reforçará na minha mão.
21.Os que me ouviam esperavam o meu conselho e guardavam silêncio para ouvi-lo.
22.Havendo eu falado, não replicavam; as minhas palavras caíam sobre eles como orvalho.
23.Esperavam-me como à chuva, abriam a boca como à chuva de primavera.
24.Sorria-me para eles quando não tinham confiança; e a luz do meu rosto não desprezavam.
25.Eu lhes escolhia o caminho, assentava-me como chefe e habitava como rei entre as suas tropas, como quem consola os que pranteiam.
Jó lamenta a miséria em que caiu
1.Mas agora se riem de mim os de menos idade do que eu, e cujos pais eu teria desdenhado de pôr ao lado dos cães do meu rebanho.
2.De que também me serviria a força das suas mãos, homens cujo vigor já pereceu?
3.De míngua e fome se debilitaram; roem os lugares secos, desde muito em ruínas e desolados.
4.Apanham malvas e folhas dos arbustos e se sustentam de raízes de zimbro.
5.Do meio dos homens são expulsos; grita-se contra eles, como se grita atrás de um ladrão;
6.habitam nos desfiladeiros sombrios, nas cavernas da terra e das rochas.
7.Bramam entre os arbustos e se ajuntam debaixo dos espinheiros.
8.São filhos de doidos, raça infame, e da terra são escorraçados.
9.Mas agora sou a sua canção de motejo e lhes sirvo de provérbio.
10.Abominam-me, fogem para longe de mim e não se abstêm de me cuspir no rosto.
11.Porque Deus afrouxou a corda do meu arco e me oprimiu; pelo que sacudiram de si o freio perante o meu rosto.
12.À direita se levanta uma súcia, e me empurra, e contra mim prepara o seu caminho de destruição.
13.Arruínam a minha vereda, promovem a minha calamidade; gente para quem já não há socorro.
14.Vêm contra mim como por uma grande brecha e se revolvem avante entre as ruínas.
15.Sobrevieram-me pavores, como pelo vento é varrida a minha honra; como nuvem passou a minha felicidade.
16.Agora, dentro de mim se me derrama a alma; os dias da aflição se apoderaram de mim.
17.A noite me verruma os ossos e os desloca, e não descansa o mal que me rói.
18.Pela grande violência do meu mal está desfigurada a minha veste, mal que me cinge como a gola da minha túnica.
19.Deus, tu me lançaste na lama, e me tornei semelhante ao pó e à cinza.
20.Clamo a ti, e não me respondes; estou em pé, mas apenas olhas para mim.
21.Tu foste cruel comigo; com a força da tua mão tu me combates.
22.Levantas-me sobre o vento e me fazes cavalgá-lo; dissolves-me no estrondo da tempestade.
23.Pois eu sei que me levarás à morte e à casa destinada a todo vivente.
24.De um montão de ruínas não estenderá o homem a mão e na sua desventura não levantará um grito por socorro?
25.Acaso, não chorei sobre aquele que atravessava dias difíceis ou não se angustiou a minha alma pelo necessitado?
26.Aguardava eu o bem, e eis que me veio o mal; esperava a luz, veio-me a escuridão.
27.O meu íntimo se agita sem cessar; e dias de aflição me sobrevêm.
28.Ando de luto, sem a luz do sol; levanto-me na congregação e clamo por socorro.
29.Sou irmão dos chacais e companheiro de avestruzes.
30.Enegrecida se me cai a pele, e os meus ossos queimam em febre.
31.Por isso, a minha harpa se me tornou em prantos de luto, e a minha flauta, em voz dos que choram.
Jó declara sua integridade
1.Fiz aliança com meus olhos; como, pois, os fixaria eu numa donzela?
2.Que porção, pois, teria eu do Deus lá de cima e que herança, do Todo-Poderoso desde as alturas?
3.Acaso, não é a perdição para o iníquo, e o infortúnio, para os que praticam a maldade?
4.Ou não vê Deus os meus caminhos e não conta todos os meus passos?
5.Se andei com falsidade, e se o meu pé se apressou para o engano
6.( pese-me Deus em balanças fiéis e conhecerá a minha integridade );
7.se os meus passos se desviaram do caminho, e se o meu coração segue os meus olhos, e se às minhas mãos se apegou qualquer mancha,
8.então, semeie eu, e outro coma, e sejam arrancados os renovos do meu campo.
9.Se o meu coração se deixou seduzir por causa de mulher, se andei à espreita à porta do meu próximo,
10.então, moa minha mulher para outro, e outros se encurvem sobre ela.
11.Pois seria isso um crime hediondo, delito à punição de juízes;
12.pois seria fogo que consome até à destruição e desarraigaria toda a minha renda.
13.Se desprezei o direito do meu servo ou da minha serva, quando eles contendiam comigo,
14.então, que faria eu quando Deus se levantasse? E, inquirindo ele a causa, que lhe responderia eu?
15.Aquele que me formou no ventre materno não os fez também a eles? Ou não é o mesmo que nos formou na madre?
16.Se retive o que os pobres desejavam ou fiz desfalecer os olhos da viúva;
17.ou, se sozinho comi o meu bocado, e o órfão dele não participou
18.( Porque desde a minha mocidade cresceu comigo como se eu lhe fora o pai, e desde o ventre da minha mãe fui o guia da viúva. );
19.se a alguém vi perecer por falta de roupa e ao necessitado, por não ter coberta;
20.se os seus lombos não me abençoaram, se ele não se aquentava com a lã dos meus cordeiros;
21.se eu levantei a mão contra o órfão, por me ver apoiado pelos juízes da porta,
22.então, caia a omoplata do meu ombro, e seja arrancado o meu braço da articulação.
23.Porque o castigo de Deus seria para mim um assombro, e eu não poderia enfrentar a sua majestade.
24.Se no ouro pus a minha esperança ou disse ao ouro fino: em ti confio;
25.se me alegrei por serem grandes os meus bens e por ter a minha mão alcançado muito;
26.se olhei para o sol, quando resplandecia, ou para a lua, que caminhava esplendente,
27.e o meu coração se deixou enganar em oculto, e beijos lhes atirei com a mão,
28.também isto seria delito à punição de juízes; pois assim negaria eu ao Deus lá de cima.
29.Se me alegrei da desgraça do que me tem ódio e se exultei quando o mal o atingiu
30.( Também não deixei pecar a minha boca, pedindo com imprecações a sua morte. );
31.se a gente da minha tenda não disse: Ah! Quem haverá aí que não se saciou de carne provida por ele
32.( O estrangeiro não pernoitava na rua; as minhas portas abria ao viandante. )!
33.Se, como Adão, encobri as minhas transgressões, ocultando o meu delito no meu seio;
34.porque eu temia a grande multidão, e o desprezo das famílias me apavorava, de sorte que me calei e não saí da porta.
35.Tomara eu tivesse quem me ouvisse! Eis aqui a minha defesa assinada! Que o Todo-Poderoso me responda! Que o meu adversário escreva a sua acusação!
36.Por certo que a levaria sobre o meu ombro, atá-la-ia sobre mim como coroa;
37.mostrar-lhe-ia o número dos meus passos; como príncipe me chegaria a ele.
38.Se a minha terra clamar contra mim, e se os seus sulcos juntamente chorarem;
39.se comi os seus frutos sem tê-la pago devidamente e causei a morte aos seus donos,
40.por trigo me produza cardos, e por cevada, joio. Fim das palavras de Jó.
Eliú irado contra Jó e seus três amigos
1.Cessaram aqueles três homens de responder a Jó no tocante ao se ter ele por justo aos seus próprios olhos.
2.Então, se acendeu a ira de Eliú, filho de Baraquel, o buzita, da família de Rão; acendeu-se a sua ira contra Jó, porque este pretendia ser mais justo do que Deus.
3.Também a sua ira se acendeu contra os três amigos, porque, mesmo não achando eles o que responder, condenavam a Jó.
4.Eliú, porém, esperara para falar a Jó, pois eram de mais idade do que ele.
5.Vendo Eliú que já não havia resposta na boca daqueles três homens, a sua ira se acendeu.
Eliú vinga o seu direito de responder a Jó
6.Disse Eliú, filho de Baraquel, o buzita: Eu sou de menos idade, e vós sois idosos; arreceei-me e temi de vos declarar a minha opinião.
7.Dizia eu: Falem os dias, e a multidão dos anos ensine a sabedoria.
8.Na verdade, há um espírito no homem, e o sopro do Todo-Poderoso o faz sábio.
9.Os de mais idade não é que são os sábios, nem os velhos, os que entendem o que é reto.
10.Pelo que digo: dai-me ouvidos, e também eu declararei a minha opinião.
11.Eis que aguardei as vossas palavras e dei ouvidos às vossas considerações, enquanto, quem sabe, buscáveis o que dizer.
12.Atentando, pois, para vós outros, eis que nenhum de vós houve que refutasse a Jó, nem que respondesse às suas razões.
13.Não vos desculpeis, pois, dizendo: Achamos sabedoria nele; Deus pode vencê-lo, e não o homem.
14.Ora, ele não me dirigiu palavra alguma, nem eu lhe retorquirei com as vossas palavras.
15.Jó, os três estão pasmados, já não respondem, faltam-lhes as palavras.
16.Acaso, devo esperar, pois não falam, estão parados e nada mais respondem?
17.Também eu concorrerei com a minha resposta; declararei a minha opinião.
18.Porque tenho muito que falar, e o meu espírito me constrange.
19.Eis que dentro de mim sou como o vinho, sem respiradouro, como odres novos, prestes a arrebentar-se.
20.Permiti, pois, que eu fale para desafogar-me; abrirei os lábios e responderei.
21.Não farei acepção de pessoas, nem usarei de lisonjas com o homem.
22.Porque não sei lisonjear; em caso contrário, em breve me levaria o meu Criador.
Eliú repreende a Jó
1.Ouve, pois, Jó, as minhas razões e dá ouvidos a todas as minhas palavras.
2.Passo agora a falar, em minha boca fala a língua.
3.As minhas razões provam a sinceridade do meu coração, e os meus lábios proferem o puro saber.
4.O Espírito de Deus me fez, e o sopro do Todo-Poderoso me dá vida.
5.Se podes, contesta-me, dispõe bem as tuas razões perante mim e apresenta-te.
6.Eis que diante de Deus sou como tu és; também eu sou formado do barro.
7.Por isso, não te inspiro terror, nem será pesada sobre ti a minha mão.
8.Na verdade, falaste perante mim, e eu ouvi o som das tuas palavras:
9.Estou limpo, sem transgressão; puro sou e não tenho iniqüidade.
10.Eis que Deus procura pretextos contra mim e me considera como seu inimigo.
11.Põe no tronco os meus pés e observa todas as minhas veredas.
12.Nisto não tens razão, eu te respondo; porque Deus é maior do que o homem.
13.Por que contendes com ele, afirmando que não te dá contas de nenhum dos seus atos?
14.Pelo contrário, Deus fala de um modo, sim, de dois modos, mas o homem não atenta para isso.
15.Em sonho ou em visão de noite, quando cai sono profundo sobre os homens, quando adormecem na cama,
16.então, lhes abre os ouvidos e lhes sela a sua instrução,
17.para apartar o homem do seu desígnio e livrá-lo da soberba;
18.para guardar a sua alma da cova e a sua vida de passar pela espada.
19.Também no seu leito é castigado com dores, com incessante contenda nos seus ossos;
20.de modo que a sua vida abomina o pão, e a sua alma, a comida apetecível.
21.A sua carne, que se via, agora desaparece, e os seus ossos, que não se viam, agora se descobrem.
22.A sua alma se vai chegando à cova, e a sua vida, aos portadores da morte.
23.Se com ele houver um anjo intercessor, um dos milhares, para declarar ao homem o que lhe convém,
24.então, Deus terá misericórdia dele e dirá ao anjo: Redime-o, para que não desça à cova; achei resgate.
25.Sua carne se robustecerá com o vigor da sua infância, e ele tornará aos dias da sua juventude.
26.Deveras orará a Deus, que lhe será propício; ele, com júbilo, verá a face de Deus, e este lhe restituirá a sua justiça.
27.Cantará diante dos homens e dirá: Pequei, perverti o direito e não fui punido segundo merecia.
28.Deus redimiu a minha alma de ir para a cova; e a minha vida verá a luz.
29.Eis que tudo isto é obra de Deus, duas e três vezes para com o homem,
30.para reconduzir da cova a sua alma e o alumiar com a luz dos viventes.
31.Escuta, pois, ó Jó, ouve-me; cala-te, e eu falarei.
32.Se tens alguma coisa que dizer, responde-me; fala, porque desejo justificar-te.
33.Se não, escuta-me; cala-te, e ensinar-te-ei a sabedoria.
Eliú justifica a Deus
1.Disse mais Eliú:
2.Ouvi, ó sábios, as minhas razões; vós, instruídos, inclinai os ouvidos para mim.
3.Porque o ouvido prova as palavras, como o paladar, a comida.
4.O que é direito escolhamos para nós; conheçamos entre nós o que é bom.
5.Porque Jó disse: Sou justo, e Deus tirou o meu direito.
6.Apesar do meu direito, sou tido por mentiroso; a minha ferida é incurável, sem que haja pecado em mim.
7.Que homem há como Jó, que bebe a zombaria como água?
8.E anda em companhia dos que praticam a iniqüidade e caminha com homens perversos?
9.Pois disse: De nada aproveita ao homem o comprazer-se em Deus.
10.Pelo que vós, homens sensatos, escutai-me: longe de Deus o praticar ele a perversidade, e do Todo-Poderoso o cometer injustiça.
11.Pois retribui ao homem segundo as suas obras e faz que a cada um toque segundo o seu caminho.
12.Na verdade, Deus não procede maliciosamente; nem o Todo-Poderoso perverte o juízo.
13.Quem lhe entregou o governo da terra? Quem lhe confiou o universo?
14.Se Deus pensasse apenas em si mesmo e para si recolhesse o seu espírito e o seu sopro,
15.toda a carne juntamente expiraria, e o homem voltaria para o pó.
16.Se, pois, há em ti entendimento, ouve isto; inclina os ouvidos ao som das minhas palavras.
17.Acaso, governaria o que aborrecesse o direito? E quererás tu condenar aquele que é justo e poderoso?
18.Dir-se-á a um rei: Oh! Vil? Ou aos príncipes: Oh! Perversos?
19.Quanto menos àquele que não faz acepção das pessoas de príncipes, nem estima ao rico mais do que ao pobre; porque todos são obra de suas mãos.
20.De repente, morrem; à meia-noite, os povos são perturbados e passam, e os poderosos são tomados por força invisível.
21.Os olhos de Deus estão sobre os caminhos do homem e vêem todos os seus passos.
22.Não há trevas nem sombra assaz profunda, onde se escondam os que praticam a iniqüidade.
23.Pois Deus não precisa observar por muito tempo o homem antes de o fazer ir a juízo perante ele.
24.Quebranta os fortes, sem os inquirir, e põe outros em seu lugar.
25.Ele conhece, pois, as suas obras; de noite, os transtorna, e ficam moídos.
26.Ele os fere como a perversos, à vista de todos;
27.porque dele se desviaram, e não quiseram compreender nenhum de seus caminhos,
28.e, assim, fizeram que o clamor do pobre subisse até Deus, e este ouviu o lamento dos aflitos.
29.Se ele aquietar-se, quem o condenará? Se encobrir o rosto, quem o poderá contemplar, seja um povo, seja um homem?
30.Para que o ímpio não reine, e não haja quem iluda o povo.
31.Se alguém diz a Deus: Sofri, não pecarei mais;
32.o que não vejo, ensina-mo tu; se cometi injustiça, jamais a tornarei a praticar,
33.acaso, deve ele recompensar-te segundo tu queres ou não queres? Acaso, deve ele dizer-te: Escolhe tu, e não eu; declara o que sabes, fala?
34.Os homens sensatos dir-me-ão, dir-me-á o sábio que me ouve:
35.Jó falou sem conhecimento, e nas suas palavras não há sabedoria.
36.Tomara fosse Jó provado até ao fim, porque ele respondeu como homem de iniqüidade.
37.Pois ao seu pecado acrescenta rebelião, entre nós, com desprezo, bate ele palmas e multiplica as suas palavras contra Deus.
Deus não ouve os aflitos, porque estes não têm fé
1.Disse mais Eliú:
2.Achas que é justo dizeres: Maior é a minha justiça do que a de Deus?
3.Porque dizes: De que me serviria ela? Que proveito tiraria dela mais do que do meu pecado?
4.Dar-te-ei resposta, a ti e aos teus amigos contigo.
5.Atenta para os céus e vê; contempla as altas nuvens acima de ti.
6.Se pecas, que mal lhe causas tu? Se as tuas transgressões se multiplicam, que lhe fazes?
7.Se és justo, que lhe dás ou que recebe ele da tua mão?
8.A tua impiedade só pode fazer o mal ao homem como tu mesmo; e a tua justiça, dar proveito ao filho do homem.
9.Por causa das muitas opressões, os homens clamam, clamam por socorro contra o braço dos poderosos.
10.Mas ninguém diz: Onde está Deus, que me fez, que inspira canções de louvor durante a noite,
11.que nos ensina mais do que aos animais da terra e nos faz mais sábios do que as aves dos céus?
12.Clamam, porém ele não responde, por causa da arrogância dos maus.
13.Só gritos vazios Deus não ouvirá, nem atentará para eles o Todo-Poderoso.
14.Jó, ainda que dizes que não o vês, a tua causa está diante dele; por isso, espera nele.
15.Mas agora, porque Deus na sua ira não está punindo, nem fazendo muito caso das transgressões,
16.abres a tua boca, com palavras vãs, amontoando frases de ignorante.
No sofrer do homem, Deus lhe visa o bem
1.Prosseguiu Eliú e disse:
2.Mais um pouco de paciência, e te mostrarei que ainda tenho argumentos a favor de Deus.
3.De longe trarei o meu conhecimento e ao meu Criador atribuirei a justiça.
4.Porque, na verdade, as minhas palavras não são falsas; contigo está quem é senhor do assunto.
5.Eis que Deus é mui grande; contudo a ninguém despreza; é grande na força da sua compreensão.
6.Não poupa a vida ao perverso, mas faz justiça aos aflitos.
7.Dos justos não tira os olhos; antes, com os reis, no trono os assenta para sempre, e são exaltados.
8.Se estão presos em grilhões e amarrados com cordas de aflição,
9.ele lhes faz ver as suas obras, as suas transgressões, e que se houveram com soberba.
10.Abre-lhes também os ouvidos para a instrução e manda-lhes que se convertam da iniqüidade.
11.Se o ouvirem e o servirem, acabarão seus dias em felicidade e os seus anos em delícias.
12.Porém, se não o ouvirem, serão traspassados pela lança e morrerão na sua cegueira.
13.Os ímpios de coração amontoam para si a ira; e, agrilhoados por Deus, não clamam por socorro.
14.Perdem a vida na sua mocidade e morrem entre os prostitutos cultuais.
15.Ao aflito livra por meio da sua aflição e pela opressão lhe abre os ouvidos.
16.Assim também procura tirar-te das fauces da angústia para um lugar espaçoso, em que não há aperto, e as iguarias da tua mesa seriam cheias de gordura;
17.mas tu te enches do juízo do perverso, e, por isso, o juízo e a justiça te alcançarão.
18.Guarda-te, pois, de que a ira não te induza a escarnecer, nem te desvie a grande quantia do resgate.
19.Estimaria ele as tuas lamúrias e todos os teus grandes esforços, para que te vejas livre da tua angústia?
20.Não suspires pela noite, em que povos serão tomados do seu lugar.
21.Guarda-te, não te inclines para a iniqüidade; pois isso preferes à tua miséria.
22.Eis que Deus se mostra grande em seu poder! Quem é mestre como ele?
23.Quem lhe prescreveu o seu caminho ou quem lhe pode dizer: Praticaste a injustiça?
Eliú exalta a majestade de Deus
24.Lembra-te de lhe magnificares as obras que os homens celebram.
25.Todos os homens as contemplam; de longe as admira o homem.
26.Eis que Deus é grande, e não o podemos compreender; o número dos seus anos não se pode calcular.
27.Porque atrai para si as gotas de água que de seu vapor destilam em chuva,
28.a qual as nuvens derramam e gotejam sobre o homem abundantemente.
29.Acaso, pode alguém entender o estender-se das nuvens e os trovões do seu pavilhão?
30.Eis que estende sobre elas o seu relâmpago e encobre as profundezas do mar.
31.Pois por estas coisas julga os povos e lhes dá mantimento em abundância.
32.Enche as mãos de relâmpagos e os dardeja contra o adversário.
33.O fragor da tempestade dá notícias a respeito dele, dele que é zeloso na sua ira contra a injustiça.
1.Sobre isto treme também o meu coração e salta do seu lugar.
2.Dai ouvidos ao trovão de Deus, estrondo que sai da sua boca;
3.ele o solta por debaixo de todos os céus, e o seu relâmpago, até aos confins da terra.
4.Depois deste, ruge a sua voz, troveja com o estrondo da sua majestade, e já ele não retém o relâmpago quando lhe ouvem a voz.
5.Com a sua voz troveja Deus maravilhosamente; faz grandes coisas, que nós não compreendemos.
6.Porque ele diz à neve: Cai sobre a terra; e à chuva e ao aguaceiro: Sede fortes.
7.Assim, torna ele inativas as mãos de todos os homens, para que reconheçam as obras dele.
8.E as alimárias entram nos seus esconderijos e ficam nas suas cavernas.
9.De suas recâmaras sai o pé-de-vento, e, dos ventos do norte, o frio.
10.Pelo sopro de Deus se dá a geada, e as largas águas se congelam.
11.Também de umidade carrega as densas nuvens, nuvens que espargem os relâmpagos.
12.Então, elas, segundo o rumo que ele dá, se espalham para uma e outra direção, para fazerem tudo o que lhes ordena sobre a redondeza da terra.
13.E tudo isso faz ele vir para disciplina, se convém à terra, ou para exercer a sua misericórdia.
14.Inclina, Jó, os ouvidos a isto, pára e considera as maravilhas de Deus.
15.Porventura, sabes tu como Deus as opera e como faz resplandecer o relâmpago da sua nuvem?
16.Tens tu notícia do equilíbrio das nuvens e das maravilhas daquele que é perfeito em conhecimento?
17.Que faz aquecer as tuas vestes, quando há calma sobre a terra por causa do vento sul?
18.Ou estendeste com ele o firmamento, que é sólido como espelho fundido?
19.Ensina-nos o que lhe diremos; porque nós, envoltos em trevas, nada lhe podemos expor.
20.Contar-lhe-ia alguém o que tenho dito? Seria isso desejar o homem ser devorado.
21.Eis que o homem não pode olhar para o sol, que brilha no céu, uma vez passado o vento que o deixa limpo.
22.Do norte vem o áureo esplendor, pois Deus está cercado de tremenda majestade.
23.Ao Todo-Poderoso, não o podemos alcançar; ele é grande em poder, porém não perverte o juízo e a plenitude da justiça.
24.Por isso, os homens o temem; ele não olha para os que se julgam sábios.
O Senhor convence a Jó de ignorância
1.Depois disto, o SENHOR, do meio de um redemoinho, respondeu a Jó:
2.Quem é este que escurece os meus desígnios com palavras sem conhecimento?
3.Cinge, pois, os lombos como homem, pois eu te perguntarei, e tu me farás saber.
4.Onde estavas tu, quando eu lançava os fundamentos da terra? Dize-mo, se tens entendimento.
5.Quem lhe pôs as medidas, se é que o sabes? Ou quem estendeu sobre ela o cordel?
6.Sobre que estão fundadas as suas bases ou quem lhe assentou a pedra angular,
7.quando as estrelas da alva, juntas, alegremente cantavam, e rejubilavam todos os filhos de Deus?
8.Ou quem encerrou o mar com portas, quando irrompeu da madre;
9.quando eu lhe pus as nuvens por vestidura e a escuridão por fraldas?
10.Quando eu lhe tracei limites, e lhe pus ferrolhos e portas,
11.e disse: até aqui virás e não mais adiante, e aqui se quebrará o orgulho das tuas ondas?
12.Acaso, desde que começaram os teus dias, deste ordem à madrugada ou fizeste a alva saber o seu lugar,
13.para que se apegasse às orlas da terra, e desta fossem os perversos sacudidos?
14.A terra se modela como o barro debaixo do selo, e tudo se apresenta como vestidos;
15.dos perversos se desvia a sua luz, e o braço levantado para ferir se quebranta.
16.Acaso, entraste nos mananciais do mar ou percorreste o mais profundo do abismo?
17.Porventura, te foram reveladas as portas da morte ou viste essas portas da região tenebrosa?
18.Tens idéia nítida da largura da terra? Dize-mo, se o sabes.
19.Onde está o caminho para a morada da luz? E, quanto às trevas, onde é o seu lugar,
20.para que as conduzas aos seus limites e discirnas as veredas para a sua casa?
21.Tu o sabes, porque nesse tempo eras nascido e porque é grande o número dos teus dias!
22.Acaso, entraste nos depósitos da neve e viste os tesouros da saraiva,
23.que eu retenho até ao tempo da angústia, até ao dia da peleja e da guerra?
24.Onde está o caminho para onde se difunde a luz e se espalha o vento oriental sobre a terra?
25.Quem abriu regos para o aguaceiro ou caminho para os relâmpagos dos trovões;
26.para que se faça chover sobre a terra, onde não há ninguém, e no ermo, em que não há gente;
27.para dessedentar a terra deserta e assolada e para fazer crescer os renovos da erva?
28.Acaso, a chuva tem pai? Ou quem gera as gotas do orvalho?
29.De que ventre procede o gelo? E quem dá à luz a geada do céu?
30.As águas ficam duras como a pedra, e a superfície das profundezas se torna compacta.
31.Ou poderás tu atar as cadeias do Sete-estrelo ou soltar os laços do Órion?
32.Ou fazer aparecer os signos do Zodíaco ou guiar a Ursa com seus filhos?
33.Sabes tu as ordenanças dos céus, podes estabelecer a sua influência sobre a terra?
34.Podes levantar a tua voz até às nuvens, para que a abundância das águas te cubra?
35.Ou ordenarás aos relâmpagos que saiam e te digam: Eis-nos aqui?
36.Quem pôs sabedoria nas camadas de nuvens? Ou quem deu entendimento ao meteoro?
37.Quem pode numerar com sabedoria as nuvens? Ou os odres dos céus, quem os pode despejar,
38.para que o pó se transforme em massa sólida, e os torrões se apeguem uns aos outros?
39.Caçarás, porventura, a presa para a leoa? Ou saciarás a fome dos leõezinhos,
40.quando se agacham nos covis e estão à espreita nas covas?
41.Quem prepara aos corvos o seu alimento, quando os seus pintainhos gritam a Deus e andam vagueando, por não terem que comer?
Almeida Revista e Atualizada, ARA © Copyright 1993
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