Jó defende a sua integridade
1.Eis que tudo isso viram os meus olhos, e os meus ouvidos o ouviram e entenderam.
2.Como vós o sabeis, também eu o sei; não vos sou inferior.
3.Mas falarei ao Todo-Poderoso e quero defender-me perante Deus.
4.Vós, porém, besuntais a verdade com mentiras e vós todos sois médicos que não valem nada.
5.Tomara vos calásseis de todo, que isso seria a vossa sabedoria!
6.Ouvi agora a minha defesa e atentai para os argumentos dos meus lábios.
7.Porventura, falareis perversidade em favor de Deus e a seu favor falareis mentiras?
8.Sereis parciais por ele? Contendereis a favor de Deus?
9.Ser-vos-ia bom, se ele vos esquadrinhasse? Ou zombareis dele, como se zomba de um homem qualquer?
10.Acerbamente vos repreenderá, se em oculto fordes parciais.
11.Porventura, não vos amedrontará a sua dignidade, e não cairá sobre vós o seu terror?
12.As vossas máximas são como provérbios de cinza, os vossos baluartes, baluartes de barro.
13.Calai-vos perante mim, e falarei eu, e venha sobre mim o que vier.
14.Tomarei a minha carne nos meus dentes e porei a vida na minha mão.
15.Eis que me matará, já não tenho esperança; contudo, defenderei o meu procedimento.
16.Também isto será a minha salvação, o fato de o ímpio não vir perante ele.
17.Atentai para as minhas razões e dai ouvidos à minha exposição.
18.Tenho já bem encaminhada minha causa e estou certo de que serei justificado.
19.Quem há que possa contender comigo? Neste caso, eu me calaria e renderia o espírito.
20.Concede-me somente duas coisas; então, me não esconderei do teu rosto:
21.alivia a tua mão de sobre mim, e não me espante o teu terror.
22.Interpela-me, e te responderei ou deixa-me falar e tu me responderás.
23.Quantas culpas e pecados tenho eu? Notifica-me a minha transgressão e o meu pecado.
24.Por que escondes o rosto e me tens por teu inimigo?
25.Queres aterrorizar uma folha arrebatada pelo vento? E perseguirás a palha seca?
26.Pois decretas contra mim coisas amargas e me atribuis as culpas da minha mocidade.
27.Também pões os meus pés no tronco, observas todos os meus caminhos e traças limites à planta dos meus pés,
28.apesar de eu ser como uma coisa podre que se consome e como a roupa que é comida da traça.
Jó medita sobre a brevidade da vida
1.O homem, nascido de mulher, vive breve tempo, cheio de inquietação.
2.Nasce como a flor e murcha; foge como a sombra e não permanece;
3.e sobre tal homem abres os olhos e o fazes entrar em juízo contigo?
4.Quem da imundícia poderá tirar coisa pura? Ninguém!
5.Visto que os seus dias estão contados, contigo está o número dos seus meses; tu ao homem puseste limites além dos quais não passará.
6.Desvia dele os olhares, para que tenha repouso, até que, como o jornaleiro, tenha prazer no seu dia.
7.Porque há esperança para a árvore, pois, mesmo cortada, ainda se renovará, e não cessarão os seus rebentos.
8.Se envelhecer na terra a sua raiz, e no chão morrer o seu tronco,
9.ao cheiro das águas brotará e dará ramos como a planta nova.
10.O homem, porém, morre e fica prostrado; expira o homem e onde está?
11.Como as águas do lago se evaporam, e o rio se esgota e seca,
12.assim o homem se deita e não se levanta; enquanto existirem os céus, não acordará, nem será despertado do seu sono.
13.Que me encobrisses na sepultura e me ocultasses até que a tua ira se fosse, e me pusesses um prazo e depois te lembrasses de mim!
14.Morrendo o homem, porventura tornará a viver? Todos os dias da minha luta esperaria, até que eu fosse substituído.
15.Chamar-me-ias, e eu te responderia; terias saudades da obra de tuas mãos;
16.e até contarias os meus passos e não levarias em conta os meus pecados.
17.A minha transgressão estaria selada num saco, e terias encoberto as minhas iniqüidades.
18.Como o monte que se esboroa e se desfaz, e a rocha que se remove do seu lugar,
19.como as águas gastam as pedras, e as cheias arrebatam o pó da terra, assim destróis a esperança do homem.
20.Tu prevaleces para sempre contra ele, e ele passa, mudas-lhe o semblante e o despedes para o além.
21.Os seus filhos recebem honras, e ele o não sabe; são humilhados, e ele o não percebe.
22.Ele sente as dores apenas de seu próprio corpo, e só a seu respeito sofre a sua alma.
Elifaz acusa a Jó de impiedade
1.Então, respondeu Elifaz, o temanita:
2.Porventura, dará o sábio em resposta ciência de vento? E encher-se-á a si mesmo de vento oriental,
3.argüindo com palavras que de nada servem e com razões de que nada aproveita?
4.Tornas vão o temor de Deus e diminuis a devoção a ele devida.
5.Pois a tua iniqüidade ensina à tua boca, e tu escolheste a língua dos astutos.
6.A tua própria boca te condena, e não eu; os teus lábios testificam contra ti.
7.És tu, porventura, o primeiro homem que nasceu? Ou foste formado antes dos outeiros?
8.Ou ouviste o secreto conselho de Deus e a ti só limitaste a sabedoria?
9.Que sabes tu, que nós não saibamos? Que entendes, que não haja em nós?
10.Também há entre nós encanecidos e idosos, muito mais idosos do que teu pai.
11.Porventura, fazes pouco caso das consolações de Deus e das suaves palavras que te dirigimos nós?
12.Por que te arrebata o teu coração? Por que flamejam os teus olhos,
13.para voltares contra Deus o teu furor e deixares sair tais palavras da tua boca?
14.Que é o homem, para que seja puro? E o que nasce de mulher, para ser justo?
15.Eis que Deus não confia nem nos seus santos; nem os céus são puros aos seus olhos,
16.quanto menos o homem, que é abominável e corrupto, que bebe a iniqüidade como a água!
Elifaz mostra o justo castigo dos perversos
17.Escuta-me, mostrar-to-ei; e o que tenho visto te contarei,
18.o que os sábios anunciaram, que o ouviram de seus pais e não o ocultaram
19.( aos quais somente se dera a terra, e nenhum estranho passou por entre eles ):
20.Todos os dias o perverso é atormentado, no curto número de anos que se reservam para o opressor.
21.O sonido dos horrores está nos seus ouvidos; na prosperidade lhe sobrevém o assolador.
22.Não crê que tornará das trevas, e sim que o espera a espada.
23.Por pão anda vagueando, dizendo: Onde está? Bem sabe que o dia das trevas lhe está preparado, à mão.
24.Assombram-no a angústia e a tribulação; prevalecem contra ele, como o rei preparado para a peleja,
25.porque estendeu a mão contra Deus e desafiou o Todo-Poderoso;
26.arremete contra ele obstinadamente, atrás da grossura dos seus escudos,
27.porquanto cobriu o rosto com a sua gordura e criou enxúndia nas ilhargas;
28.habitou em cidades assoladas, em casas em que ninguém devia morar, que estavam destinadas a se fazerem montões de ruínas.
29.Por isso, não se enriquecerá, nem subsistirá a sua fazenda, nem se estenderão seus bens pela terra.
30.Não escapará das trevas; a chama do fogo secará os seus renovos, e ao assopro da boca de Deus será arrebatado.
31.Não confie, pois, na vaidade, enganando-se a si mesmo, porque a vaidade será a sua recompensa.
32.Esta se lhe consumará antes dos seus dias, e o seu ramo não reverdecerá.
33.Sacudirá as suas uvas verdes, como a vide, e deixará cair a sua flor, como a oliveira;
34.pois a companhia dos ímpios será estéril, e o fogo consumirá as tendas de suborno.
35.Concebem a malícia e dão à luz a iniqüidade, pois o seu coração só prepara enganos.
Jó se queixa do trato de Deus
2.Tenho ouvido muitas coisas como estas; todos vós sois consoladores molestos.
3.Porventura, não terão fim essas palavras de vento? Ou que é que te instiga para responderes assim?
4.Eu também poderia falar como vós falais; se a vossa alma estivesse em lugar da minha, eu poderia dirigir-vos um montão de palavras e menear contra vós outros a minha cabeça;
5.poderia fortalecer-vos com as minhas palavras, e a compaixão dos meus lábios abrandaria a vossa dor.
6.Se eu falar, a minha dor não cessa; se me calar, qual é o meu alívio?
7.Na verdade, as minhas forças estão exaustas; tu, ó Deus, destruíste a minha família toda.
8.Testemunha disto é que já me tornaste encarquilhado, a minha magreza já se levanta contra mim e me acusa cara a cara.
9.Na sua ira me despedaçou e tem animosidade contra mim; contra mim rangeu os dentes e, como meu adversário, aguça os olhos.
10.Homens abrem contra mim a boca, com desprezo me esbofeteiam, e contra mim todos se ajuntam.
11.Deus me entrega ao ímpio e nas mãos dos perversos me faz cair.
12.Em paz eu vivia, porém ele me quebrantou; pegou-me pelo pescoço e me despedaçou; pôs-me por seu alvo.
13.Cercam-me as suas flechas, atravessa-me os rins, e não me poupa, e o meu fel derrama na terra.
14.Fere-me com ferimento sobre ferimento, arremete contra mim como um guerreiro.
15.Cosi sobre a minha pele o cilício e revolvi o meu orgulho no pó.
16.O meu rosto está todo afogueado de chorar, e sobre as minhas pálpebras está a sombra da morte,
17.embora não haja violência nas minhas mãos, e seja pura a minha oração.
18.Ó terra, não cubras o meu sangue, e não haja lugar em que se oculte o meu clamor!
19.Já agora sabei que a minha testemunha está no céu, e, nas alturas, quem advoga a minha causa.
20.Os meus amigos zombam de mim, mas os meus olhos se desfazem em lágrimas diante de Deus,
21.para que ele mantenha o direito do homem contra o próprio Deus e o do filho do homem contra o seu próximo.
22.Porque dentro de poucos anos eu seguirei o caminho de onde não tornarei.
Jó nada mais espera desta vida
1.O meu espírito se vai consumindo, os meus dias se vão apagando, e só tenho perante mim a sepultura.
2.Estou, de fato, cercado de zombadores, e os meus olhos são obrigados a lhes contemplar a provocação.
3.Dá-me, pois, um penhor; sê o meu fiador para contigo mesmo; quem mais haverá que se possa comprometer comigo?
4.Porque ao seu coração encobriste o entendimento, pelo que não os exaltarás.
5.Se alguém oferece os seus amigos como presa, os olhos de seus filhos desfalecerão.
6.Mas a mim me pôs por provérbio dos povos; tornei-me como aquele em cujo rosto se cospe.
7.Pelo que já se escureceram de mágoa os meus olhos, e já todos os meus membros são como a sombra;
8.os retos pasmam disto, e o inocente se levanta contra o ímpio.
9.Contudo, o justo segue o seu caminho, e o puro de mãos cresce mais e mais em força.
10.Mas tornai-vos, todos vós, e vinde cá; porque sábio nenhum acharei entre vós.
11.Os meus dias passaram, e se malograram os meus propósitos, as aspirações do meu coração.
12.Convertem-me a noite em dia, e a luz, dizem, está perto das trevas.
13.Mas, se eu aguardo já a sepultura por minha casa; se nas trevas estendo a minha cama;
14.se ao sepulcro eu clamo: tu és meu pai; e aos vermes: vós sois minha mãe e minha irmã,
15.onde está, pois, a minha esperança? Sim, a minha esperança, quem a poderá ver?
16.Ela descerá até às portas da morte, quando juntamente no pó teremos descanso.
Bildade descreve a sorte do perverso
1.Então, respondeu Bildade, o suíta:
2.Até quando andarás à caça de palavras? Considera bem, e, então, falaremos.
3.Por que somos reputados por animais, e aos teus olhos passamos por curtos de inteligência?
4.Oh! Tu, que te despedaças na tua ira, será a terra abandonada por tua causa? Remover-se-ão as rochas do seu lugar?
5.Na verdade, a luz do perverso se apagará, e para seu fogo não resplandecerá a faísca;
6.a luz se escurecerá nas suas tendas, e a sua lâmpada sobre ele se apagará;
7.os seus passos fortes se estreitarão, e a sua própria trama o derribará.
8.Porque por seus próprios pés é lançado na rede e andará na boca de forje.
9.A armadilha o apanhará pelo calcanhar, e o laço o prenderá.
10.A corda está-lhe escondida na terra, e a armadilha, na vereda.
11.Os assombros o espantarão de todos os lados e o perseguirão a cada passo.
12.A calamidade virá faminta sobre ele, e a miséria estará alerta ao seu lado,
13.a qual lhe devorará os membros do corpo; serão devorados pelo primogênito da morte.
14.O perverso será arrancado da sua tenda, onde está confiado, e será levado ao rei dos terrores.
15.Nenhum dos seus morará na sua tenda, espalhar-se-á enxofre sobre a sua habitação.
16.Por baixo secarão as suas raízes, e murcharão por cima os seus ramos.
17.A sua memória desaparecerá da terra, e pelas praças não terá nome.
18.Da luz o lançarão nas trevas e o afugentarão do mundo.
19.Não terá filho nem posteridade entre o seu povo, nem sobrevivente algum ficará nas suas moradas.
20.Do seu dia se espantarão os do Ocidente, e os do Oriente serão tomados de horror.
21.Tais são, na verdade, as moradas do perverso, e este é o paradeiro do que não conhece a Deus.
Jó, embora sofrendo, sabe que seu Redentor vive
2.Até quando afligireis a minha alma e me quebrantareis com palavras?
3.Já dez vezes me vituperastes e não vos envergonhais de injuriar-me.
4.Embora haja eu, na verdade, errado, comigo ficará o meu erro.
5.Se quereis engrandecer-vos contra mim e me argüis pelo meu opróbrio,
6.sabei agora que Deus é que me oprimiu e com a sua rede me cercou.
7.Eis que clamo: violência! Mas não sou ouvido; grito: socorro! Porém não há justiça.
8.O meu caminho ele fechou, e não posso passar; e nas minhas veredas pôs trevas.
9.Da minha honra me despojou e tirou-me da cabeça a coroa.
10.Arruinou-me de todos os lados, e eu me vou; e arrancou-me a esperança, como a uma árvore.
11.Inflamou contra mim a sua ira e me tem na conta de seu adversário.
12.Juntas vieram as suas tropas, prepararam contra mim o seu caminho e se acamparam ao redor da minha tenda.
13.Pôs longe de mim a meus irmãos, e os que me conhecem, como estranhos, se apartaram de mim.
14.Os meus parentes me desampararam, e os meus conhecidos se esqueceram de mim.
15.Os que se abrigam na minha casa e as minhas servas me têm por estranho, e vim a ser estrangeiro aos seus olhos.
16.Chamo o meu criado, e ele não me responde; tenho de suplicar-lhe, eu mesmo.
17.O meu hálito é intolerável à minha mulher, e pelo mau cheiro sou repugnante aos filhos de minha mãe.
18.Até as crianças me desprezam, e, querendo eu levantar-me, zombam de mim.
19.Todos os meus amigos íntimos me abominam, e até os que eu amava se tornaram contra mim.
20.Os meus ossos se apegam à minha pele e à minha carne, e salvei-me só com a pele dos meus dentes.
21.Compadecei-vos de mim, amigos meus, compadecei-vos de mim, porque a mão de Deus me atingiu.
22.Por que me perseguis como Deus me persegue e não cessais de devorar a minha carne?
23.Quem me dera fossem agora escritas as minhas palavras! Quem me dera fossem gravadas em livro!
24.Que, com pena de ferro e com chumbo, para sempre fossem esculpidas na rocha!
25.Porque eu sei que o meu Redentor vive e por fim se levantará sobre a terra.
26.Depois, revestido este meu corpo da minha pele, em minha carne verei a Deus.
27.Vê-lo-ei por mim mesmo, os meus olhos o verão, e não outros; de saudade me desfalece o coração dentro de mim.
28.Se disserdes: Como o perseguiremos? E: A causa deste mal se acha nele,
29.temei, pois, a espada, porque tais acusações merecem o seu furor, para saberdes que há um juízo.
Zofar descreve as calamidades dos perversos
1.Então, respondeu Zofar, o naamatita:
2.Visto que os meus pensamentos me impõem resposta, eu me apresso.
3.Eu ouvi a repreensão, que me envergonha, mas o meu espírito me obriga a responder segundo o meu entendimento.
4.Porventura, não sabes tu que desde todos os tempos, desde que o homem foi posto sobre a terra,
5.o júbilo dos perversos é breve, e a alegria dos ímpios, momentânea?
6.Ainda que a sua presunção remonte aos céus, e a sua cabeça atinja as nuvens,
7.como o seu próprio esterco, apodrecerá para sempre; e os que o conheceram dirão: Onde está?
8.Voará como um sonho e não será achado, será afugentado como uma visão da noite.
9.Os olhos que o viram jamais o verão, e o seu lugar não o verá outra vez.
10.Os seus filhos procurarão aplacar aos pobres, e as suas mãos lhes restaurarão os seus bens.
11.Ainda que os seus ossos estejam cheios do vigor da sua juventude, esse vigor se deitará com ele no pó.
12.Ainda que o mal lhe seja doce na boca, e ele o esconda debaixo da língua,
13.e o saboreie, e o não deixe; antes, o retenha no seu paladar,
14.contudo, a sua comida se transformará nas suas entranhas; fel de áspides será no seu interior.
15.Engoliu riquezas, mas vomitá-las-á; do seu ventre Deus as lançará.
16.Veneno de áspides sorveu; língua de víbora o matará.
17.Não se deliciará com a vista dos ribeiros e dos rios transbordantes de mel e de leite.
18.Devolverá o fruto do seu trabalho e não o engolirá; do lucro de sua barganha não tirará prazer nenhum.
19.Oprimiu e desamparou os pobres, roubou casas que não edificou.
20.Por não haver limites à sua cobiça, não chegará a salvar as coisas por ele desejadas.
21.Nada escapou à sua cobiça insaciável, pelo que a sua prosperidade não durará.
22.Na plenitude da sua abastança, ver-se-á angustiado; toda a força da miséria virá sobre ele.
23.Para encher a sua barriga, Deus mandará sobre ele o furor da sua ira, que, por alimento, mandará chover sobre ele.
24.Se fugir das armas de ferro, o arco de bronze o traspassará.
25.Ele arranca das suas costas a flecha, e esta vem resplandecente do seu fel; e haverá assombro sobre ele.
26.Todas as calamidades serão reservadas contra os seus tesouros; fogo não assoprado o consumirá, fogo que se apascentará do que ficar na sua tenda.
27.Os céus lhe manifestarão a sua iniqüidade; e a terra se levantará contra ele.
28.As riquezas de sua casa serão transportadas; como água serão derramadas no dia da ira de Deus.
29.Tal é, da parte de Deus, a sorte do homem perverso, tal a herança decretada por Deus.
Jó descreve a prosperidade dos perversos
2.Ouvi atentamente as minhas razões, e já isso me será a vossa consolação.
3.Tolerai-me, e eu falarei; e, havendo eu falado, podereis zombar.
4.Acaso, é do homem que eu me queixo? Não tenho motivo de me impacientar?
5.Olhai para mim e pasmai; e ponde a mão sobre a boca;
6.porque só de pensar nisso me perturbo, e um calafrio se apodera de toda a minha carne.
7.Como é, pois, que vivem os perversos, envelhecem e ainda se tornam mais poderosos?
8.Seus filhos se estabelecem na sua presença; e os seus descendentes, ante seus olhos.
9.As suas casas têm paz, sem temor, e a vara de Deus não os fustiga.
10.O seu touro gera e não falha, suas novilhas têm a cria e não abortam.
11.Deixam correr suas crianças, como a um rebanho, e seus filhos saltam de alegria;
12.cantam com tamboril e harpa e alegram-se ao som da flauta.
13.Passam eles os seus dias em prosperidade e em paz descem à sepultura.
14.E são estes os que disseram a Deus: Retira-te de nós! Não desejamos conhecer os teus caminhos.
15.Que é o Todo-Poderoso, para que nós o sirvamos? E que nos aproveitará que lhe façamos orações?
16.Vede, porém, que não provém deles a sua prosperidade; longe de mim o conselho dos perversos!
17.Quantas vezes sucede que se apaga a lâmpada dos perversos? Quantas vezes lhes sobrevém a destruição? Quantas vezes Deus na sua ira lhes reparte dores?
18.Quantas vezes são como a palha diante do vento e como a pragana arrebatada pelo remoinho?
19.Deus, dizeis vós, guarda a iniqüidade do perverso para seus filhos. Mas é a ele que deveria Deus dar o pago, para que o sinta.
20.Seus próprios olhos devem ver a sua ruína, e ele, beber do furor do Todo-Poderoso.
21.Porque depois de morto, cortado já o número dos seus meses, que interessa a ele a sua casa?
22.Acaso, alguém ensinará ciência a Deus, a ele que julga os que estão nos céus?
23.Um morre em pleno vigor, despreocupado e tranqüilo,
24.com seus baldes cheios de leite e fresca a medula dos seus ossos.
25.Outro, ao contrário, morre na amargura do seu coração, não havendo provado do bem.
26.Juntamente jazem no pó, onde os vermes os cobrem.
27.Vede que conheço os vossos pensamentos e os injustos desígnios com que me tratais.
28.Porque direis: Onde está a casa do príncipe, e onde, a tenda em que morava o perverso?
29.Porventura, não tendes interrogado os que viajam? E não considerastes as suas declarações,
30.que o mau é poupado no dia da calamidade, é socorrido no dia do furor?
31.Quem lhe lançará em rosto o seu proceder? Quem lhe dará o pago do que faz?
32.Finalmente, é levado à sepultura, e sobre o seu túmulo se faz vigilância.
33.Os torrões do vale lhe são leves, todos os homens o seguem, assim como não têm número os que foram adiante dele.
34.Como, pois, me consolais em vão? Das vossas respostas só resta falsidade.
Elifaz acusa a Jó de grandes pecados
1.Então, respondeu Elifaz, o temanita:
2.Porventura, será o homem de algum proveito a Deus? Antes, o sábio é só útil a si mesmo.
3.Ou tem o Todo-Poderoso interesse em que sejas justo ou algum lucro em que faças perfeitos os teus caminhos?
4.Ou te repreende pelo teu temor de Deus ou entra contra ti em juízo?
5.Porventura, não é grande a tua malícia, e sem termo, as tuas iniqüidades?
6.Porque sem causa tomaste penhores a teu irmão e aos seminus despojaste das suas roupas.
7.Não deste água a beber ao cansado e ao faminto retiveste o pão.
8.Ao braço forte pertencia a terra, e só os homens favorecidos habitavam nela.
9.As viúvas despediste de mãos vazias, e os braços dos órfãos foram quebrados.
10.Por isso, estás cercado de laços, e repentino pavor te conturba
11.ou trevas, em que nada vês; e águas transbordantes te cobrem.
12.Porventura, não está Deus nas alturas do céu? Olha para as estrelas mais altas. Que altura!
13.E dizes: Que sabe Deus? Acaso, poderá ele julgar através de densa escuridão?
14.Grossas nuvens o encobrem, de modo que não pode ver; ele passeia pela abóbada do céu.
15.Queres seguir a rota antiga, que os homens iníquos pisaram?
16.Estes foram arrebatados antes do tempo; o seu fundamento, uma torrente o arrasta.
17.Diziam a Deus: Retira-te de nós. E: Que pode fazer-nos o Todo-Poderoso?
18.Contudo, ele enchera de bens as suas casas. Longe de mim o conselho dos perversos!
19.Os justos o vêem e se alegram, e o inocente escarnece deles,
20.dizendo: Na verdade, os nossos adversários foram destruídos, e o fogo consumiu o resto deles.
21.Reconcilia-te, pois, com ele e tem paz, e assim te sobrevirá o bem.
22.Aceita, peço-te, a instrução que profere e põe as suas palavras no teu coração.
23.Se te converteres ao Todo-Poderoso, serás restabelecido; se afastares a injustiça da tua tenda
24.e deitares ao pó o teu ouro e o ouro de Ofir entre pedras dos ribeiros,
25.então, o Todo-Poderoso será o teu ouro e a tua prata escolhida.
26.Deleitar-te-ás, pois, no Todo-Poderoso e levantarás o rosto para Deus.
27.Orarás a ele, e ele te ouvirá; e pagarás os teus votos.
28.Se projetas alguma coisa, ela te sairá bem, e a luz brilhará em teus caminhos.
29.Se estes descem, então, dirás: Para cima! E Deus salvará o humilde
30.e livrará até ao que não é inocente; sim, será libertado, graças à pureza de tuas mãos.
Jó deseja apresentar-se perante Deus
2.Ainda hoje a minha queixa é de um revoltado, apesar de a minha mão reprimir o meu gemido.
3.Ah! Se eu soubesse onde o poderia achar! Então, me chegaria ao seu tribunal.
4.Exporia ante ele a minha causa, encheria a minha boca de argumentos.
5.Saberia as palavras que ele me respondesse e entenderia o que me dissesse.
6.Acaso, segundo a grandeza de seu poder, contenderia comigo? Não; antes, me atenderia.
7.Ali, o homem reto pleitearia com ele, e eu me livraria para sempre do meu juiz.
8.Eis que, se me adianto, ali não está; se torno para trás, não o percebo.
9.Se opera à esquerda, não o vejo; esconde-se à direita, e não o diviso.
10.Mas ele sabe o meu caminho; se ele me provasse, sairia eu como o ouro.
11.Os meus pés seguiram as suas pisadas; guardei o seu caminho e não me desviei dele.
12.Do mandamento de seus lábios nunca me apartei, escondi no meu íntimo as palavras da sua boca.
13.Mas, se ele resolveu alguma coisa, quem o pode dissuadir? O que ele deseja, isso fará.
14.Pois ele cumprirá o que está ordenado a meu respeito e muitas coisas como estas ainda tem consigo.
15.Por isso, me perturbo perante ele; e, quando o considero, temo-o.
16.Deus é quem me fez desmaiar o coração, e o Todo-Poderoso, quem me perturbou,
17.porque não estou desfalecido por causa das trevas, nem porque a escuridão cobre o meu rosto.
Jó contesta que os perversos muitas vezes não são castigados
1.Por que o Todo-Poderoso não designa tempos de julgamento? E por que os que o conhecem não vêem tais dias?
2.Há os que removem os limites, roubam os rebanhos e os apascentam.
3.Levam do órfão o jumento, da viúva, tomam-lhe o boi.
4.Desviam do caminho aos necessitados, e os pobres da terra todos têm de esconder-se.
5.Como asnos monteses no deserto, saem estes para o seu mister, à procura de presa no campo aberto, como pão para eles e seus filhos.
6.No campo segam o pasto do perverso e lhe rabiscam a vinha.
7.Passam a noite nus por falta de roupa e não têm cobertas contra o frio.
8.Pelas chuvas das montanhas são molhados e, não tendo refúgio, abraçam-se com as rochas.
9.Orfãozinhos são arrancados ao peito, e dos pobres se toma penhor;
10.de modo que estes andam nus, sem roupa, e, famintos, arrastam os molhos.
11.Entre os muros desses perversos espremem o azeite, pisam-lhes o lagar; contudo, padecem sede.
12.Desde as cidades gemem os homens, e a alma dos feridos clama; e, contudo, Deus não tem isso por anormal.
13.Os perversos são inimigos da luz, não conhecem os seus caminhos, nem permanecem nas suas veredas.
14.De madrugada se levanta o homicida, mata ao pobre e ao necessitado, e de noite se torna ladrão.
15.Aguardam o crepúsculo os olhos do adúltero; este diz consigo: Ninguém me reconhecerá; e cobre o rosto.
16.Nas trevas minam as casas, de dia se conservam encerrados, nada querem com a luz.
17.Pois a manhã para todos eles é como sombra de morte; mas os terrores da noite lhes são familiares.
18.Vós dizeis: Os perversos são levados rapidamente na superfície das águas; maldita é a porção dos tais na terra; já não andam pelo caminho das vinhas.
19.A secura e o calor desfazem as águas da neve; assim faz a sepultura aos que pecaram.
20.A mãe se esquecerá deles, os vermes os comerão gostosamente; nunca mais haverá lembrança deles; como árvore será quebrado o injusto,
21.aquele que devora a estéril que não tem filhos e não faz o bem à viúva.
22.Não! Pelo contrário, Deus por sua força prolonga os dias dos valentes; vêem-se eles de pé quando desesperavam da vida.
23.Ele lhes dá descanso, e nisso se estribam; os olhos de Deus estão nos caminhos deles.
24.São exaltados por breve tempo; depois, passam, colhidos como todos os mais; são cortados como as pontas das espigas.
25.Se não é assim, quem me desmentirá e anulará as minhas razões?
Bildade nega que o homem possa justificar-se diante de Deus
1.Então, respondeu Bildade, o suíta:
2.A Deus pertence o domínio e o poder; ele faz reinar a paz nas alturas celestes.
3.Acaso, têm número os seus exércitos? E sobre quem não se levanta a sua luz?
4.Como, pois, seria justo o homem perante Deus, e como seria puro aquele que nasce de mulher?
5.Eis que até a lua não tem brilho, e as estrelas não são puras aos olhos dele.
6.Quanto menos o homem, que é gusano, e o filho do homem, que é verme!
Almeida Revista e Atualizada, ARA © Copyright 1993
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