Desafio dos 90 dias

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O renome de Mordecai
1.Depois disto, o rei Assuero impôs tributo sobre a terra e sobre as terras do mar.
2.Quanto aos mais atos do seu poder e do seu valor e ao relatório completo da grandeza de Mordecai, a quem o rei exaltou, porventura, não estão escritos no Livro da História dos Reis da Média e da Pérsia?
3.Pois o judeu Mordecai foi o segundo depois do rei Assuero, e grande para com os judeus, e estimado pela multidão de seus irmãos, tendo procurado o bem-estar do seu povo e trabalhado pela prosperidade de todo o povo da sua raça.
A virtude e riqueza de Jó
1.Havia um homem na terra de Uz, cujo nome era Jó; homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desviava do mal.
2.Nasceram-lhe sete filhos e três filhas.
3.Possuía sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois e quinhentas jumentas; era também mui numeroso o pessoal ao seu serviço, de maneira que este homem era o maior de todos os do Oriente.
4.Seus filhos iam às casas uns dos outros e faziam banquetes, cada um por sua vez, e mandavam convidar as suas três irmãs a comerem e beberem com eles.
5.Decorrido o turno de dias de seus banquetes, chamava Jó a seus filhos e os santificava; levantava-se de madrugada e oferecia holocaustos segundo o número de todos eles, pois dizia: Talvez tenham pecado os meus filhos e blasfemado contra Deus em seu coração. Assim o fazia Jó continuamente.
6.Num dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o SENHOR, veio também Satanás entre eles.
7.Então, perguntou o SENHOR a Satanás: Donde vens? Satanás respondeu ao SENHOR e disse: De rodear a terra e passear por ela.
8.Perguntou ainda o SENHOR a Satanás: Observaste o meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desvia do mal.
9.Então, respondeu Satanás ao SENHOR: Porventura, Jó debalde teme a Deus?
10.Acaso, não o cercaste com sebe, a ele, a sua casa e a tudo quanto tem? A obra de suas mãos abençoaste, e os seus bens se multiplicaram na terra.
11.Estende, porém, a mão, e toca-lhe em tudo quanto tem, e verás se não blasfema contra ti na tua face.
12.Disse o SENHOR a Satanás: Eis que tudo quanto ele tem está em teu poder; somente contra ele não estendas a mão. E Satanás saiu da presença do SENHOR.
As aflições e a paciência de Jó
13.Sucedeu um dia, em que seus filhos e suas filhas comiam e bebiam vinho na casa do irmão primogênito,
14.que veio um mensageiro a Jó e lhe disse: Os bois lavravam, e as jumentas pasciam junto a eles;
15.de repente, deram sobre eles os sabeus, e os levaram, e mataram aos servos a fio de espada; só eu escapei, para trazer-te a nova.
16.Falava este ainda quando veio outro e disse: Fogo de Deus caiu do céu, e queimou as ovelhas e os servos, e os consumiu; só eu escapei, para trazer-te a nova.
17.Falava este ainda quando veio outro e disse: Dividiram-se os caldeus em três bandos, deram sobre os camelos, os levaram e mataram aos servos a fio de espada; só eu escapei, para trazer-te a nova.
18.Também este falava ainda quando veio outro e disse: Estando teus filhos e tuas filhas comendo e bebendo vinho, em casa do irmão primogênito,
19.eis que se levantou grande vento do lado do deserto e deu nos quatro cantos da casa, a qual caiu sobre eles, e morreram; só eu escapei, para trazer-te a nova.
20.Então, Jó se levantou, rasgou o seu manto, rapou a cabeça e lançou-se em terra e adorou;
21.e disse: Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei; o SENHOR o deu e o SENHOR o tomou; bendito seja o nome do SENHOR!
22.Em tudo isto Jó não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma.
1.Num dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o SENHOR, veio também Satanás entre eles apresentar-se perante o SENHOR.
2.Então, o SENHOR disse a Satanás: Donde vens? Respondeu Satanás ao SENHOR e disse: De rodear a terra e passear por ela.
3.Perguntou o SENHOR a Satanás: Observaste o meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desvia do mal. Ele conserva a sua integridade, embora me incitasses contra ele, para o consumir sem causa.
4.Então, Satanás respondeu ao SENHOR: Pele por pele, e tudo quanto o homem tem dará pela sua vida.
5.Estende, porém, a mão, toca-lhe nos ossos e na carne e verás se não blasfema contra ti na tua face.
6.Disse o SENHOR a Satanás: Eis que ele está em teu poder; mas poupa-lhe a vida.
7.Então, saiu Satanás da presença do SENHOR e feriu a Jó de tumores malignos, desde a planta do pé até ao alto da cabeça.
8.Jó, sentado em cinza, tomou um caco para com ele raspar-se.
9.Então, sua mulher lhe disse: Ainda conservas a tua integridade? Amaldiçoa a Deus e morre.
10.Mas ele lhe respondeu: Falas como qualquer doida; temos recebido o bem de Deus e não receberíamos também o mal? Em tudo isto não pecou Jó com os seus lábios.
11.Ouvindo, pois, três amigos de Jó todo este mal que lhe sobreviera, chegaram, cada um do seu lugar: Elifaz, o temanita, Bildade, o suíta, e Zofar, o naamatita; e combinaram ir juntamente condoer-se dele e consolá-lo.
12.Levantando eles de longe os olhos e não o reconhecendo, ergueram a voz e choraram; e cada um, rasgando o seu manto, lançava pó ao ar sobre a cabeça.
13.Sentaram-se com ele na terra, sete dias e sete noites; e nenhum lhe dizia palavra alguma, pois viam que a dor era muito grande.
Jó amaldiçoa o seu nascimento
1.Depois disto, passou Jó a falar e amaldiçoou o seu dia natalício.
2.Disse Jó:
3.Pereça o dia em que nasci e a noite em que se disse: Foi concebido um homem!
4.Converta-se aquele dia em trevas; e Deus, lá de cima, não tenha cuidado dele, nem resplandeça sobre ele a luz.
5.Reclamem-no as trevas e a sombra de morte; habitem sobre ele nuvens; espante-o tudo o que pode enegrecer o dia.
6.Aquela noite, que dela se apoderem densas trevas; não se regozije ela entre os dias do ano, não entre na conta dos meses.
7.Seja estéril aquela noite, e dela sejam banidos os sons de júbilo.
8.Amaldiçoem-na aqueles que sabem amaldiçoar o dia e sabem excitar o monstro marinho.
9.Escureçam-se as estrelas do crepúsculo matutino dessa noite; que ela espere a luz, e a luz não venha; que não veja as pálpebras dos olhos da alva,
10.pois não fechou as portas do ventre de minha mãe, nem escondeu dos meus olhos o sofrimento.
11.Por que não morri eu na madre? Por que não expirei ao sair dela?
12.Por que houve regaço que me acolhesse? E por que peitos, para que eu mamasse?
13.Porque já agora repousaria tranqüilo; dormiria, e, então, haveria para mim descanso,
14.com os reis e conselheiros da terra que para si edificaram mausoléus;
15.ou com os príncipes que tinham ouro e encheram de prata as suas casas;
16.ou, como aborto oculto, eu não existiria, como crianças que nunca viram a luz.
17.Ali, os maus cessam de perturbar, e, ali, repousam os cansados.
18.Ali, os presos juntamente repousam e não ouvem a voz do feitor.
19.Ali, está tanto o pequeno como o grande e o servo livre de seu senhor.
20.Por que se concede luz ao miserável e vida aos amargurados de ânimo,
21.que esperam a morte, e ela não vem? Eles cavam em procura dela mais do que tesouros ocultos.
22.Eles se regozijariam por um túmulo e exultariam se achassem a sepultura.
23.Por que se concede luz ao homem, cujo caminho é oculto, e a quem Deus cercou de todos os lados?
24.Por que em vez do meu pão me vêm gemidos, e os meus lamentos se derramam como água?
25.Aquilo que temo me sobrevém, e o que receio me acontece.
26.Não tenho descanso, nem sossego, nem repouso, e já me vem grande perturbação.
Elifaz repreende a Jó
1.Então, respondeu Elifaz, o temanita, e disse:
2.Se intentar alguém falar-te, enfadar-te-ás? Quem, todavia, poderá conter as palavras?
3.Eis que tens ensinado a muitos e tens fortalecido mãos fracas.
4.As tuas palavras têm sustentado aos que tropeçavam, e os joelhos vacilantes tens fortificado.
5.Mas agora, em chegando a tua vez, tu te enfadas; sendo tu atingido, te perturbas.
6.Porventura, não é o teu temor de Deus aquilo em que confias, e a tua esperança, a retidão dos teus caminhos?
7.Lembra-te: acaso, já pereceu algum inocente? E onde foram os retos destruídos?
8.Segundo eu tenho visto, os que lavram a iniqüidade e semeiam o mal, isso mesmo eles segam.
9.Com o hálito de Deus perecem; e com o assopro da sua ira se consomem.
10.Cessa o bramido do leão e a voz do leão feroz, e os dentes dos leõezinhos se quebram.
11.Perece o leão, porque não há presa, e os filhos da leoa andam dispersos.
12.Uma palavra se me disse em segredo; e os meus ouvidos perceberam um sussurro dela.
13.Entre pensamentos de visões noturnas, quando profundo sono cai sobre os homens,
14.sobrevieram-me o espanto e o tremor, e todos os meus ossos estremeceram.
15.Então, um espírito passou por diante de mim; fez-me arrepiar os cabelos do meu corpo;
16.parou ele, mas não lhe discerni a aparência; um vulto estava diante dos meus olhos; houve silêncio, e ouvi uma voz:
17.Seria, porventura, o mortal justo diante de Deus? Seria, acaso, o homem puro diante do seu Criador?
18.Eis que Deus não confia nos seus servos e aos seus anjos atribui imperfeições;
19.quanto mais àqueles que habitam em casas de barro, cujo fundamento está no pó, e são esmagados como a traça!
20.Nascem de manhã e à tarde são destruídos; perecem para sempre, sem que disso se faça caso.
21.Se se lhes corta o fio da vida, morrem e não atingem a sabedoria.
Elifaz exorta a Jó a que busque a Deus
1.Chama agora! Haverá alguém que te atenda? E para qual dos santos anjos te virarás?
2.Porque a ira do louco o destrói, e o zelo do tolo o mata.
3.Bem vi eu o louco lançar raízes; mas logo declarei maldita a sua habitação.
4.Seus filhos estão longe do socorro, são espezinhados às portas, e não há quem os livre.
5.A sua messe, o faminto a devora e até do meio dos espinhos a arrebata; e o intrigante abocanha os seus bens.
6.Porque a aflição não vem do pó, e não é da terra que brota o enfado.
7.Mas o homem nasce para o enfado, como as faíscas das brasas voam para cima.
8.Quanto a mim, eu buscaria a Deus e a ele entregaria a minha causa;
9.ele faz coisas grandes e inescrutáveis e maravilhas que não se podem contar;
10.faz chover sobre a terra e envia águas sobre os campos,
11.para pôr os abatidos num lugar alto e para que os enlutados se alegrem da maior ventura.
12.Ele frustra as maquinações dos astutos, para que as suas mãos não possam realizar seus projetos.
13.Ele apanha os sábios na sua própria astúcia; e o conselho dos que tramam se precipita.
14.Eles de dia encontram as trevas; ao meio-dia andam como de noite, às apalpadelas.
15.Porém Deus salva da espada que lhes sai da boca, salva o necessitado da mão do poderoso.
16.Assim, há esperança para o pobre, e a iniqüidade tapa a sua própria boca.
17.Bem-aventurado é o homem a quem Deus disciplina; não desprezes, pois, a disciplina do Todo-Poderoso.
18.Porque ele faz a ferida e ele mesmo a ata; ele fere, e as suas mãos curam.
19.De seis angústias te livrará, e na sétima o mal te não tocará.
20.Na fome te livrará da morte; na guerra, do poder da espada.
21.Do açoite da língua estarás abrigado e, quando vier a assolação, não a temerás.
22.Da assolação e da fome te rirás e das feras da terra não terás medo.
23.Porque até com as pedras do campo terás a tua aliança, e os animais da terra viverão em paz contigo.
24.Saberás que a paz é a tua tenda, percorrerás as tuas possessões, e nada te faltará.
25.Saberás também que se multiplicará a tua descendência, e a tua posteridade, como a erva da terra.
26.Em robusta velhice entrarás para a sepultura, como se recolhe o feixe de trigo a seu tempo.
27.Eis que isto já o havemos inquirido, e assim é; ouve-o e medita nisso para teu bem.
Jó justifica as suas queixas
1.Então, Jó respondeu:
2.Oh! Se a minha queixa, de fato, se pesasse, e contra ela, numa balança, se pusesse a minha miséria,
3.esta, na verdade, pesaria mais que a areia dos mares; por isso é que as minhas palavras foram precipitadas.
4.Porque as flechas do Todo-Poderoso estão em mim cravadas, e o meu espírito sorve o veneno delas; os terrores de Deus se arregimentam contra mim.
5.Zurrará o jumento montês junto à relva? Ou mugirá o boi junto à sua forragem?
6.Comer-se-á sem sal o que é insípido? Ou haverá sabor na clara do ovo?
7.Aquilo que a minha alma recusava tocar, isso é agora a minha comida repugnante.
8.Quem dera que se cumprisse o meu pedido, e que Deus me concedesse o que anelo!
9.Que fosse do agrado de Deus esmagar-me, que soltasse a sua mão e acabasse comigo!
10.Isto ainda seria a minha consolação, e saltaria de contente na minha dor, que ele não poupa; porque não tenho negado as palavras do Santo.
11.Por que esperar, se já não tenho forças? Por que prolongar a vida, se o meu fim é certo?
12.Acaso, a minha força é a força da pedra? Ou é de bronze a minha carne?
13.Não! Jamais haverá socorro para mim; foram afastados de mim os meus recursos.
14.Ao aflito deve o amigo mostrar compaixão, a menos que tenha abandonado o temor do Todo-Poderoso.
15.Meus irmãos aleivosamente me trataram; são como um ribeiro, como a torrente que transborda no vale,
16.turvada com o gelo e com a neve que nela se esconde,
17.torrente que no tempo do calor seca, emudece e desaparece do seu lugar.
18.Desviam-se as caravanas dos seus caminhos, sobem para lugares desolados e perecem.
19.As caravanas de Temá procuram essa torrente, os viajantes de Sabá por ela suspiram.
20.Ficam envergonhados por terem confiado; em chegando ali, confundem-se.
21.Assim também vós outros sois nada para mim; vedes os meus males e vos espantais.
22.Acaso, disse eu: dai-me um presente? Ou: oferecei-me um suborno da vossa fazenda?
23.Ou: livrai-me do poder do opressor? Ou: redimi-me das mãos dos tiranos?
24.Ensinai-me, e eu me calarei; dai-me a entender em que tenho errado.
25.Oh! Como são persuasivas as palavras retas! Mas que é o que repreende a vossa repreensão?
26.Acaso, pensais em reprovar as minhas palavras, ditas por um desesperado ao vento?
27.Até sobre o órfão lançaríeis sorte e especularíeis com o vosso amigo?
28.Agora, pois, se sois servidos, olhai para mim e vede que não minto na vossa cara.
29.Tornai a julgar, vos peço, e não haja iniqüidade; tornai a julgar, e a justiça da minha causa triunfará.
30.Há iniqüidade na minha língua? Não pode o meu paladar discernir coisas perniciosas?
Jó contende com Deus
1.Não é penosa a vida do homem sobre a terra? Não são os seus dias como os de um jornaleiro?
2.Como o escravo que suspira pela sombra e como o jornaleiro que espera pela sua paga,
3.assim me deram por herança meses de desengano e noites de aflição me proporcionaram.
4.Ao deitar-me, digo: quando me levantarei? Mas comprida é a noite, e farto-me de me revolver na cama, até à alva.
5.A minha carne está vestida de vermes e de crostas terrosas; a minha pele se encrosta e de novo supura.
6.Os meus dias são mais velozes do que a lançadeira do tecelão e se findam sem esperança.
7.Lembra-te de que a minha vida é um sopro; os meus olhos não tornarão a ver o bem.
8.Os olhos dos que agora me vêem não me verão mais; os teus olhos me procurarão, mas já não serei.
9.Tal como a nuvem se desfaz e passa, aquele que desce à sepultura jamais tornará a subir.
10.Nunca mais tornará à sua casa, nem o lugar onde habita o conhecerá jamais.
11.Por isso, não reprimirei a boca, falarei na angústia do meu espírito, queixar-me-ei na amargura da minha alma.
12.Acaso, sou eu o mar ou algum monstro marinho, para que me ponhas guarda?
13.Dizendo eu: consolar-me-á o meu leito, a minha cama aliviará a minha queixa,
14.então, me espantas com sonhos e com visões me assombras;
15.pelo que a minha alma escolheria, antes, ser estrangulada; antes, a morte do que esta tortura.
16.Estou farto da minha vida; não quero viver para sempre. Deixa-me, pois, porque os meus dias são um sopro.
17.Que é o homem, para que tanto o estimes, e ponhas nele o teu cuidado,
18.e cada manhã o visites, e cada momento o ponhas à prova?
19.Até quando não apartarás de mim a tua vista? Até quando não me darás tempo de engolir a minha saliva?
20.Se pequei, que mal te fiz a ti, ó Espreitador dos homens? Por que fizeste de mim um alvo para ti, para que a mim mesmo me seja pesado?
21.Por que não perdoas a minha transgressão e não tiras a minha iniqüidade? Pois agora me deitarei no pó; e, se me buscas, já não serei.
Bildade afirma a justiça de Deus
1.Então, respondeu Bildade, o suíta:
2.Até quando falarás tais coisas? E até quando as palavras da tua boca serão qual vento impetuoso?
3.Perverteria Deus o direito ou perverteria o Todo-Poderoso a justiça?
4.Se teus filhos pecaram contra ele, também ele os lançou no poder da sua transgressão.
5.Mas, se tu buscares a Deus e ao Todo-Poderoso pedires misericórdia,
6.se fores puro e reto, ele, sem demora, despertará em teu favor e restaurará a justiça da tua morada.
7.O teu primeiro estado, na verdade, terá sido pequeno, mas o teu último crescerá sobremaneira.
8.Pois, eu te peço, pergunta agora a gerações passadas e atenta para a experiência de seus pais;
9.porque nós somos de ontem e nada sabemos; porquanto nossos dias sobre a terra são como a sombra.
10.Porventura, não te ensinarão os pais, não haverão de falar-te e do próprio entendimento não proferirão estas palavras:
11.Pode o papiro crescer sem lodo? Ou viça o junco sem água?
12.Estando ainda na sua verdura e ainda não colhidos, todavia, antes de qualquer outra erva se secam.
13.São assim as veredas de todos quantos se esquecem de Deus; e a esperança do ímpio perecerá.
14.A sua firmeza será frustrada, e a sua confiança é teia de aranha.
15.Encostar-se-á à sua casa, e ela não se manterá, agarrar-se-á a ela, e ela não ficará em pé.
16.Ele é viçoso perante o sol, e os seus renovos irrompem no seu jardim;
17.as suas raízes se entrelaçam num montão de pedras e penetram até às muralhas.
18.Mas, se Deus o arranca do seu lugar, então, este o negará, dizendo: Nunca te vi.
19.Eis em que deu a sua vida! E do pó brotarão outros.
20.Eis que Deus não rejeita ao íntegro, nem toma pela mão os malfeitores.
21.Ele te encherá a boca de riso e os teus lábios, de júbilo.
22.Teus aborrecedores se vestirão de ignomínia, e a tenda dos perversos não subsistirá.
Jó é incapaz de responder a Deus
1.Então, Jó respondeu e disse:
2.Na verdade, sei que assim é; porque, como pode o homem ser justo para com Deus?
3.Se quiser contender com ele, nem a uma de mil coisas lhe poderá responder.
4.Ele é sábio de coração e grande em poder; quem porfiou com ele e teve paz?
5.Ele é quem remove os montes, sem que saibam que ele na sua ira os transtorna;
6.quem move a terra para fora do seu lugar, cujas colunas estremecem;
7.quem fala ao sol, e este não sai, e sela as estrelas;
8.quem sozinho estende os céus e anda sobre os altos do mar;
9.quem fez a Ursa, o Órion, o Sete-estrelo e as recâmaras do Sul;
10.quem faz grandes coisas, que se não podem esquadrinhar, e maravilhas tais, que se não podem contar.
11.Eis que ele passa por mim, e não o vejo; segue perante mim, e não o percebo.
12.Eis que arrebata a presa! Quem o pode impedir? Quem lhe dirá: Que fazes?
13.Deus não revogará a sua própria ira; debaixo dele se encurvam os auxiliadores do Egito.
14.Como, então, lhe poderei eu responder ou escolher as minhas palavras, para argumentar com ele?
15.A ele, ainda que eu fosse justo, não lhe responderia; antes, ao meu Juiz pediria misericórdia.
16.Ainda que o chamasse, e ele me respondesse, nem por isso creria eu que desse ouvidos à minha voz.
17.Porque me esmaga com uma tempestade e multiplica as minhas chagas sem causa.
18.Não me permite respirar; antes, me farta de amarguras.
19.Se se trata da força do poderoso, ele dirá: Eis-me aqui; se, de justiça: Quem me citará?
20.Ainda que eu seja justo, a minha boca me condenará; embora seja eu íntegro, ele me terá por culpado.
21.Eu sou íntegro, não levo em conta a minha alma, não faço caso da minha vida.
22.Para mim tudo é o mesmo; por isso, digo: tanto destrói ele o íntegro como o perverso.
23.Se qualquer flagelo mata subitamente, então, se rirá do desespero do inocente.
24.A terra está entregue nas mãos dos perversos; e Deus ainda cobre o rosto dos juízes dela; se não é ele o causador disso, quem é, logo?
25.Os meus dias foram mais velozes do que um corredor; fugiram e não viram a felicidade.
26.Passaram como barcos de junco; como a águia que se lança sobre a presa.
27.Se eu disser: eu me esquecerei da minha queixa, deixarei o meu ar triste e ficarei contente;
28.ainda assim todas as minhas dores me apavoram, porque bem sei que me não terás por inocente.
29.Serei condenado; por que, pois, trabalho eu em vão?
30.Ainda que me lave com água de neve e purifique as mãos com cáustico,
31.mesmo assim me submergirás no lodo, e as minhas próprias vestes me abominarão.
32.Porque ele não é homem, como eu, a quem eu responda, vindo juntamente a juízo.
33.Não há entre nós árbitro que ponha a mão sobre nós ambos.
34.Tire ele a sua vara de cima de mim, e não me amedronte o seu terror;
35.então, falarei sem o temer; do contrário, não estaria em mim.
Jó protesta contra a severidade de Deus
1.A minha alma tem tédio à minha vida; darei livre curso à minha queixa, falarei com amargura da minha alma.
2.Direi a Deus: Não me condenes; faze-me saber por que contendes comigo.
3.Parece-te bem que me oprimas, que rejeites a obra das tuas mãos e favoreças o conselho dos perversos?
4.Tens tu olhos de carne? Acaso, vês tu como vê o homem?
5.São os teus dias como os dias do mortal? Ou são os teus anos como os anos de um homem,
6.para te informares da minha iniqüidade e averiguares o meu pecado?
7.Bem sabes tu que eu não sou culpado; todavia, ninguém há que me livre da tua mão.
8.As tuas mãos me plasmaram e me aperfeiçoaram, porém, agora, queres devorar-me.
9.Lembra-te de que me formaste como em barro; e queres, agora, reduzir-me a pó?
10.Porventura, não me derramaste como leite e não me coalhaste como queijo?
11.De pele e carne me vestiste e de ossos e tendões me entreteceste.
12.Vida me concedeste na tua benevolência, e o teu cuidado a mim me guardou.
13.Estas coisas, as ocultaste no teu coração; mas bem sei o que resolveste contigo mesmo.
14.Se eu pecar, tu me observas; e da minha iniqüidade não me perdoarás.
15.Se for perverso, ai de mim! E, se for justo, não ouso levantar a cabeça, pois estou cheio de ignomínia e olho para a minha miséria.
16.Porque, se a levanto, tu me caças como a um leão feroz e de novo revelas poder maravilhoso contra mim.
17.Tu renovas contra mim as tuas testemunhas e multiplicas contra mim a tua ira; males e lutas se sucedem contra mim.
18.Por que, pois, me tiraste da madre? Ah! Se eu morresse antes que olhos nenhuns me vissem!
19.Teria eu sido como se nunca existira e já do ventre teria sido levado à sepultura.
20.Não são poucos os meus dias? Cessa, pois, e deixa-me, para que por um pouco eu tome alento,
21.antes que eu vá para o lugar de que não voltarei, para a terra das trevas e da sombra da morte;
22.terra de negridão, de profunda escuridade, terra da sombra da morte e do caos, onde a própria luz é tenebrosa.
Zofar acusa a Jó de iniquidade
1.Então, respondeu Zofar, o naamatita:
2.Porventura, não se dará resposta a esse palavrório? Acaso, tem razão o tagarela?
3.Será o caso de as tuas parolas fazerem calar os homens? E zombarás tu sem que ninguém te envergonhe?
4.Pois dizes: A minha doutrina é pura, e sou limpo aos teus olhos.
5.Oh! Falasse Deus, e abrisse os seus lábios contra ti,
6.e te revelasse os segredos da sabedoria, da verdadeira sabedoria, que é multiforme! Sabe, portanto, que Deus permite seja esquecida parte da tua iniqüidade.
7.Porventura, desvendarás os arcanos de Deus ou penetrarás até à perfeição do Todo-Poderoso?
8.Como as alturas dos céus é a sua sabedoria; que poderás fazer? Mais profunda é ela do que o abismo; que poderás saber?
9.A sua medida é mais longa do que a terra e mais larga do que o mar.
10.Se ele passa, prende a alguém e chama a juízo, quem o poderá impedir?
11.Porque ele conhece os homens vãos e, sem esforço, vê a iniqüidade.
12.Mas o homem estúpido se tornará sábio, quando a cria de um asno montês nascer homem.
13.Se dispuseres o coração e estenderes as mãos para Deus;
14.se lançares para longe a iniqüidade da tua mão e não permitires habitar na tua tenda a injustiça,
15.então, levantarás o rosto sem mácula, estarás seguro e não temerás.
16.Pois te esquecerás dos teus sofrimentos e deles só terás lembrança como de águas que passaram.
17.A tua vida será mais clara que o meio-dia; ainda que lhe haja trevas, serão como a manhã.
18.Sentir-te-ás seguro, porque haverá esperança; olharás em derredor e dormirás tranqüilo.
19.Deitar-te-ás, e ninguém te espantará; e muitos procurarão obter o teu favor.
20.Mas os olhos dos perversos desfalecerão, o seu refúgio perecerá; sua esperança será o render do espírito.
Jó se defende das acusações de seus amigos
1.Então, Jó respondeu:
2.Na verdade, vós sois o povo, e convosco morrerá a sabedoria.
3.Também eu tenho entendimento como vós; eu não vos sou inferior; quem não sabe coisas como essas?
4.Eu sou irrisão para os meus amigos; eu, que invocava a Deus, e ele me respondia; o justo e o reto servem de irrisão.
5.No pensamento de quem está seguro, há desprezo para o infortúnio, um empurrão para aquele cujos pés já vacilam.
6.As tendas dos tiranos gozam paz, e os que provocam a Deus estão seguros; têm o punho por seu deus.
7.Mas pergunta agora às alimárias, e cada uma delas to ensinará; e às aves dos céus, e elas to farão saber.
8.Ou fala com a terra, e ela te instruirá; até os peixes do mar to contarão.
9.Qual entre todos estes não sabe que a mão do SENHOR fez isto?
10.Na sua mão está a alma de todo ser vivente e o espírito de todo o gênero humano.
11.Porventura, o ouvido não submete à prova as palavras, como o paladar prova as comidas?
12.Está a sabedoria com os idosos, e, na longevidade, o entendimento?
13.Não! Com Deus está a sabedoria e a força; ele tem conselho e entendimento.
14.O que ele deitar abaixo não se reedificará; lança na prisão, e ninguém a pode abrir.
15.Se retém as águas, elas secam; se as larga, devastam a terra.
16.Com ele está a força e a sabedoria; seu é o que erra e o que faz errar.
17.Aos conselheiros, leva-os despojados do seu cargo e aos juízes faz desvairar.
18.Dissolve a autoridade dos reis, e uma corda lhes cinge os lombos.
19.Aos sacerdotes, leva-os despojados do seu cargo e aos poderosos transtorna.
20.Aos eloqüentes ele tira a palavra e tira o entendimento aos anciãos.
21.Lança desprezo sobre os príncipes e afrouxa o cinto dos fortes.
22.Das trevas manifesta coisas profundas e traz à luz a densa escuridade.
23.Multiplica as nações e as faz perecer; dispersa-as e de novo as congrega.
24.Tira o entendimento aos príncipes do povo da terra e os faz vaguear pelos desertos sem caminho.
25.Nas trevas andam às apalpadelas, sem terem luz, e os faz cambalear como ébrios.
Almeida Revista e Atualizada, ARA © Copyright 1993
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